Luís P.

Luís P. 71 anos Conheci o Sr. Luís num quiosque de venda de flores. "Isto não é meu, estou a ajudar uma amiga, se bem que a minha reforma dá para amanhar um pouco e com isto ganho um pouco mais”, disse-me logo. Sentamo-nos à conversa enquanto fumávamos um cigarro e este diz-me que “hoje em dia, cada vez mais o Salazar seria apreciado, deixou-nos com tanto dinheiro e agora, estamos assim...”, mas disparou logo de seguida com um “só espero que o Costa ajude quem precisa mais.” Contou-me que fugiu dos Açores para Lisboa depois da 3ª classe para ir estudar no Instituto Redação Padre António Oliveira, em Caxias, onde fez a 4ª classe e aprendeu a ser carpinteiro, mecânico e sapateiro, sendo este último o que mais gostou. É reformado da construção civil mas também foi soldado em Angola e jogador de futebol. Portista dos sete costados, era um defesa direito “mais caceteiro que o Maxi (jogador do FCP)”, diz-me, entre risos. Quando lhe perguntei pela vida de soldado, diz-me que esteve em Angola, onde foi "chamado para a tropa no dia 26 de Dezembro de 1966. Vi coisas horríveis, coisas que não se deve dizer, mas depois de uma briga com um alferes, saí da tropa e fiquei a trabalhar numa fazenda de café em Belango durante dois anos." Conta-me que um dia o MPLA foi lá em paz, "apenas queriam comida, mas uns tempos depois os trabalhadores fugiram devido ao medo, abandonando a fazenda”. O Sr. Luís é viúvo há 23 anos. Quando lhe perguntei se voltou a casar respondeu-me: “Eu sabia o que tinha e não sabia o que ia buscar, ela sempre foi o amor da minha vida, ainda hoje sinto que estou casado com ela”. Em jeito de conclusão, afirmou-me que “as pessoas têm de ser boas umas com as outras, a vida dá muita volta e ter inimigos dá muito trabalho”. Considera-se uma pessoa feliz, mas gostava que as pessoas fossem melhores umas para as outras. Obrigado Senhor Luís, pelo belo momento que me proporcionou.

Ponta Delgada. 12 de Dezembro de 2015.
Rui Soares


Um Estranho por Dia

Retratos e histórias por Miguel A. Lopes / Rui Soares / Rui Miguel Pedrosa / João Porfírio .

Sem comentários:

Enviar um comentário