Daniel Santos, 19 anos; Ricardo Mateus, 22 anos

O Daniel e o Ricardo são namorados há 8 meses.
Quando os abordei, perguntei-lhes se havia problema em expor a sua identidade, se preferiam que usasse nomes fictícios ou que a fotografia não mostrasse a cara, ao que me responderam que não. “Nós temos noção que a nossa fotografia possa criar algum tipo de ‘alarido’ nas redes sociais mas nós somos felizes como somos e com quem estamos, e quem tinha de saber em ‘primeira mão’ da nossa orientação sexual e da nossa relação já sabe, por isso quem vier depois a saber é acessório.”
A mãe, a avó e o irmão do Daniel já sabiam que ele era bissexual e quando contou que tinha um namorado a reação foi ótima. A mesma reação também se sucedeu quando contou ao pai, algum tempo depois. “O meu pai já sabia que era bissexual e quando lhe contei que tinha um namorado, na noite da passagem de ano, ele até nos convidou para irmos os dois para casa dele beber uns canecos”.
No caso do Ricardo não foi bem assim. Um dia, o pai confrontou-o com o facto de ainda não ter iniciado a sua vida junto de uma rapariga. Seguiu-se uma discussão e quando o Ricardo chegou perto da mãe, e esta o viu a chorar, perguntou-lhe o que se passava.
“Não consegui dizer à minha mãe a palavra gay, só lhe disse que tinha um namorado, porque tinha bastante medo da reação dela”. A mãe, em “choque”, pergunta-lhe se é esse o caminho que ele quer para a sua vida e ele responde, simples e de uma forma direta: “eu só não quero sofrer”. Tanto os pais do Daniel como os do Ricardo estão divorciados. O Daniel vive com a mãe e o Ricardo vivia com o pai, que apesar de não conseguir ainda aceitar o filho, nem a sua orientação sexual, diz que viver com mãe também não iria ajudar, fugindo logo ao assunto.
O Ricardo, entretanto, saiu da casa do pai e veio viver para Lisboa. Trabalha num hostel e como pagamento dão-lhe estadia. Há três meses que vive assim. “O meu pai quer que eu vá a um psiquiatra e a minha mãe nos primeiros meses associava muito a homossexualidade à SIDA.”
Na rua só por duas vezes é que receberam “bocas” de pessoas alheias, mas isso não os incomoda minimamente porque eles estão bem consigo mesmo e um com o outro.
Desde sempre que aceitaram o facto de gostarem de pessoas do mesmo sexo e dizem-me que havia pessoas que se preocupavam mais com isso do que eles próprios.
Dizem que o facto das novelas portuguesas, cada vez mais, incluírem atores homossexuais ajuda bastante a mudar mentalidades porque “o público alvo das novelas é, em regra, o menos tolerante ao respeito, e ao facto de existirem homens que gostam de homens ou mulheres que gostam de mulheres.
Quanto à relação com os amigos, a resposta é partilhada pelos dois, que dizem que sempre os escolheram bem e por isso, eles mais que ninguém, aceitaram e apoiaram.
“O meu valor como pessoa ou o meu valor profissional não depende daquilo que os outros acham de mim, mas sim daquilo que eu sei que sou”, concluiu o Ricardo.

Lisboa, 15 de janeiro de 2016.
João Porfírio



Um Estranho por Dia

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