Manuel Cardoso, 64 anos

Manuel Cardoso, 64 anos. Quando o conheci e convidei a fazer parte do projecto, disse-me logo que fazia 65 anos dentro de dias, e só por isso já compensava participar. Começou por me contar que, infelizmente, a sua esposa estava muito doente: “não é tanto a idade, que ela é uma mulher nova... mas deu-lhe uma doença incurável que nem lhe sei dizer o nome. Quem trata dela sou eu e a minha filha, mas eu também sou um homem doente. Reformei-me da construção civil há um ano quase." 
Recorda-se do passado e dos "outros tempos" com um misto de tristeza e alguma nostalgia: “A vida era muito diferente naquela altura, comecei a trabalhar há mais de 40 anos. Comecei por trabalhar nas vacas, e os patrões faziam de nós o que queriam! Eu o meu pai acordávamos às 2 e tal da manhã para ir meter o leite ao povo, e depois era até à noite. E aos domingos também, e nem éramos pagos... A diferença entre aquela altura e agora é quase como o dia da noite, antigamente não se via ninguém por aqui a andar nas ruas! Nós os rapazes, quando saímos da escola no verão, comíamos aquilo que as nossas mães nos davam, se não, não comíamos!", conta, lembrando a disciplina e obediência dos tais "outros tempos". Lembra-se que tinha de ir à mata cortar lenha para poderem cozer o pão, e, hoje em dia, está tudo tão fácil que até isso vem ter à nossa porta, sem requerer qualquer esforço. É por isso que acha que os jovens de hoje em dia estão muito mal habituados e "as raparigas novas não sabem nem fritar um ovo". 
Sobre o futuro, diz-me resignado que, como daqui a uma semana já faz os 65, não pode "esperar muito mais da vida. Ando por aí, a passar o tempo, entretenho-me, ajudo em casa, mas já não espero muito mais. Vamos aguentando, nem faço planos nem nada, agora é apenas esperar”, disse-me num tom abafado. Obrigado pelo seu tempo, Sr. Manuel, e que melhores tempos se avizinhem.

Ribeira Grande. 31 de Março de 2016
Rui Soares


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Retratos e histórias por Miguel A. Lopes / Rui Soares / Rui Miguel Pedrosa / João Porfírio .

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