Hélder Mestre, 49 anos

Hélder Mestre, 49 anos - Encontrei o Helder a noite passada, chamou-me à atenção a força como subia uma rua na sua handbike. Tive de correr para o apanhar perto de uns semáforos "Ando a treinar, parti uma perna à pouco tempo." Depois de lhe explicar o projecto pediu-me apenas para o fotografar pois não queria arrefecer e mais tarde falámos pelo facebook: "em 1986 tive um acidente de carro, tinha 19 anos na altura, ia com uns amigos do atletismo, eu ia no banco de trás e o carro não tinha apoios de cabeça nem cintos atrás, despistamos-nos e o carro saiu de lado para uma ravina, começou a capotar e só parou mesmo junto à água na albufeira de castelo de bode. Fraturei o pescoço e foi o adeus vida tal como a conhecia até então, foi muito mau! Foram muitos meses de hospital e nenhuma expetativa de recuperação." Perguntei-lhe como tinha dado a volta à situação psicologicamente "não dei! Aquilo foi demais para mim, deixei-me ir e o tempo tratou de amenizar e relativizar a situação. Houve, no entanto, duas fases: a do hospital civil, onde estive 7 meses e meio e onde só vegetei, e o Centro Médico de Alcoitão onde estive também 7 meses e meio, curiosamente onde encontrei técnicos e pacientes com algo em comum e que me motivaram a reagir. Quando saí de Alcoitão ainda tive que ir 2 anos para um Lar Militar porque a minha casa não tinha condições de acessibilidade. Nesse período fiz um daqueles cursos do FSE na área de informática, seguido de vários estágios. um deles foi na CML. Agarrei-me à oportunidade e por lá fiquei, até agora. Tendo essa base do trabalho que me garantia a subsistência, comecei depois a construir a minha vida em função das minhas necessidades mais prementes: comprar casa, tirar a carta, comprar carro, estudar, etc etc" Sobre o seu treino disse-me "Olha, fiz 16 kms. Como te disse, tenho uma perna partida. Curiosamente, ontem, terça-feira fez 1 mês que caí. Estava a participar num meeting de atletismo, no Dubai. Tive um azar desgraçado: caí num mini-autocarro de transporte adaptado para cadeiras de rodas. Ainda fiz uma prova, os 400m, que nem sequer me correram bem. Fui hospitalizado e, faz hoje 1 mês, fui operado. Colocaram-me um ferro por dentro do osso a juntar os cacos. Mas não me queixo, já estou na fase da reação. Passada uma semana regressei a Lisboa e agora sou acompanhado em Sta Maria. O médico ortopedista disse que era importante apanhar sol e acelerar o ritmo cardíaco para ajudar à cicatrização do osso. Estou numa espécie de corrida contra o tempo, estou num projeto de preparação para os jogos paralímpicos do Rio2016 mas tudo vai depender da velocidade a que recuperar. Vou ter campeonatos europeus a 10 junho e tenho que já estar em "condições" de participar. Já fiz os mínimos obrigatórios mas se não conseguir provar boa forma, fica tudo muito condicionado, é uma incógnita" Hélder obrigado pela tua sinceridade e espero que consigas ir aos jogos paralímpicos Rio2016. 

Lisboa, 19 de abril de 2016. 
Miguel A. Lopes



Miguel A. Lopes

Retratos e histórias por Miguel A. Lopes / Rui Soares / Rui Miguel Pedrosa / João Porfírio .

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